Berserk – um mundo obscuro e real

Obra mais conhecida de Kentaro Miura e considerada por muitos o definidor do gênero Dark Fantasy

Quem é amante de mangás e animes já deve ter ouvido falar nesse trabalho em algum momento de sua vida. Escrito e desenhado por Kentaro Miura – mangaka que começou seu trabalho bem jovem, publicando encadernados na escola com seus amigos no anos 80. O adolescente/jovem adulto ganhou reconhecimento e logo já estava publicando trabalhos de maior impacto no Japão. Sua obra mais conhecida e considerada por muitos o definidor do gênero Dark Fantasy é Berserk, a estrela desse post de hoje.

A história do nosso protagonista guerreiro começa de uma forma deveras bizarra: Guts nasceu do corpo recém falecido de sua mãe, que havia sido linchada e enforcada numa árvore junto de outros supostos malfeitores. Vale dizer que a história se passa num período medieval, mas o motivo do linchamento fica no ar. O pequeno bebê é encontrado por Gambino, um mercenário, que adota e treina Guts para se tornar um guerreiro, embora o veterano crer que levar aquela criança consigo o traria má sorte.

Capa do primeiro volume lançado aqui no Brasil pela Panini!

A vida de jovem mercenário, tendo Gambino como figura paterna, estava indo “bem” até o dia em que o mentor perde uma de suas pernas em batalha. É a partir desse momento que a relação entre os dois personagens muda de forma drástica, levando o velho mercenário a tratar Guts como um estorvo, vendendo-o para um companheiro que abusa sexualmente do jovem, sem contar os outros maus tratos e abusos diários. Um dia Gambino tenta tirar a vida do prodígio mercenário, que se defende e acaba matando o velho que era tudo o que Guts tinha como figura familiar até aquele momento. O jovem foge para não ser morto pelos outros companheiros de trabalho e procura um recomeço.

Depois desse arco de introdução, começa a Era de Ouro quando Guts encontra Griffith e o Bando do Falcão. A vida do mercenário dá um salto gigantesco e ele conhece Caska, braço direito do líder do bando. A história já estava aos poucos revelando do que realmente se tratava, porém é no fim deste arco que vemos para onde Berserk aponta com sua narrativa, personagens e trama. Monstros, deuses, entidades, assombrações, elfos, fadas e tudo o que você imaginava não existir, fazem parte da nossa realidade, porém todos esses mitos e lendas estavam “escondidos”, até o dia do Eclipse.

O Eclipse é a reviravolta inicial da trama – um dos momentos mais chocantes do mangá!

Berserk, além de definidor de um gênero, traz personagens muito humanizados, por mais que seja num contexto de fantasia. O realismo não só na arte, mas no roteiro de Miura faz você ter empatia por Guts, Caska, Shierke, Farnese, entre outros personagens. Os vilões da história são assustadores, não somente por sua aparência bizarra, mas por seus passados e por sua construção. A trama tem várias idas e vindas, com flashbacks, explicações e um pay off muito gratificante. No final de cada volume você fica sempre com vontade de ler mais e querendo saber o que está acontecendo com cada um dos envolvidos nessa história de arrepiar. Midland é a terra onde toda a trama de Berserk acontece; um lugar governado pela elite e pelo clero, que no final se rendem e se unem a algo muito mais assombroso do que qualquer outro mortal tenha visto.

Como havia dito antes, a arte de Miura é muito detalhada e realista, mesmo sendo muito fantasiosa. No final das contas estamos lendo a história de um homem que carrega uma espada gigantesca e atira flechas com seu braço mecânico, matando monstros, então é claro que há um tom nada realista aí, mas seu traço e expressão são impecáveis. Uma das coisas que é muito interessante de se observar desde o seu lançamento (que ocorre a partir 1989) é a evolução do artista. É gritante a diferença dos primeiros volumes comparados aos mais recentes (atualmente estamos no volume 40, lançados pela Panini). Kentaro evoluiu de uma forma estupenda e muito detalhista.

Guts – o protagonista que define o nome da obra – um guerreiro que não para de atacar no ápice da adrenalina – vale pontuar o grau de detalhamento da arte aqui; é esse nível que permeia a saga com belas artes.

O mangá já passou por diversos hiatos e ainda não chegou ao seu fim. A impressão que tenho é que a história se encontra no meio. Muitos personagens já foram desenvolvidos e o palco para o final parece estar se iniciando. Lembrando que isso é apenas a impressão que tenho, se você estiver curioso, recomendo pegar esta obra assombrosa e impactante para conferir por si mesmo. Para todos aqueles que gostam do gênero Dark Fantasy ou querem entrar nesse mundo, Berserk é uma porta de entrada perfeita! Contudo, vale dizer, a palavra dark não é casual, há vários momentos durante os volumes em que me peguei chocado com as cenas e os acontecimentos, muitos destes me emocionando de forma muito positiva e outros me deixando com o estômago um pouco revirado. O apelo visual é bem carregado e não poupa nenhum detalhe, o que deixa a coisa toda muito real e palpável, tratando dos temas mais diversos e muito atuais, como política, religião, fanatismo, abuso, guerra etc. Coisas que nunca foram tão importantes quanto agora para serem discutidas e postas em pauta!

Achei prudente deixar esse aviso aqui antes de finalizar o post, pois não é todo mundo que pode vir a gostar deste trabalho. Berserk é forte e pode mexer com você de formas muito boas, mas também pode mexer com você de outras formas. Então, não deixe de conferir e conversar sobre com seus amigos e amigas. É uma experiência única e, no mínimo, interessante. Ler livros e mangás, para mim, sempre foi uma válvula de escape e uma forma de espairecer, porém inevitavelmente alguns acabam nos moldando e fazendo parte das nossas vidas, nos ensinando lições e morais. No atual momento em que estamos vivendo, onde tudo parece ser parte da trama de um mundo jogado às trevas, de vez em quando, ler coisas que possam traçar paralelos com a nossa realidade nos ajuda a lidar com ela. Esta obra de Kentaro Miura é desse tipo e espero que ela o mova assim como me move!

Agradeço muito ao amigo, Halph – que sempre me recomenda ótimas leituras, por ter me apresentado Berserk. Tento fazer o mesmo por aqui, então, boa leitura!

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